Notas públicas

Vídeo #OBrasilNãoÉBrinquedo reforça estereótipos sobre a infância

Quem pesquisa a temática da infância, como nós, sabe que no Brasil o dia 12 de outubro é marcado pela presença de crianças nas mais diversas manifestações midiáticas. É aquela data que faz parecer que a criança é ouvida e que a infância é tema a ser debatido. No entanto, nos causou  estranhamento o vídeo que circulou ontem nas redes sociais, publicado pelo coletivo @gabinetedosbichos e noticiado pela revista Fórum, entre outros veículos, que insinua que os problemas do Brasil se devem a um suposto comportamento infantilizado do presidente Jair Bolsonaro. O vídeo termina com a frase: “Lugar de criança não é na presidência”, acompanhada pela hashtag #OBrasilNãoÉBrinquedo. 

Compreendemos que a intenção tenha sido fazer um humor crítico ao governo federal e, em especial, às atitudes do presidente no cargo que ocupa, mas a relação estabelecida com a infância nos parece bastante equivocada. Nas (poucas) oportunidades em que crianças são entrevistadas sobre problemáticas do País, por exemplo, as respostas geralmente são assertivas, provocando reflexões e até indicando o desejo por soluções políticas, econômicas, educacionais, sanitárias e ambientais, entre outros temas. Acreditamos que, se as crianças fossem mais ouvidas em lugares de poder de decisão, poderiam contribuir para termos um país menos desigual, mais justo.

Sabemos que as infâncias são múltiplas e que crianças são também sujeitos de ludicidade. Certamente, não cabe a elas decidir os rumos de uma nação, ainda que devam participar dos debates sociais sobre essas gestões. Mas a infância não pode mais ser representada como metáfora da falta, da tirania, da selvageria, sinônimo de ausência crítica ou expressão de incapacidade. Sobre isso, a Recria elaborou inclusive um manifesto que busca reforçar, por um lado, a relevância e a potência das crianças e, por outro, o respeito que devemos a elas. 

Não nos opomos ao uso do humor para questionar este ou qualquer outro governo. Ao contrário, reconhecemos a importância de tal recurso. Chamamos a atenção, no entanto, para que tais produções não reforcem (nem criem) equivalências, no mínimo, equivocadas.  Foram adultos que elegeram Bolsonaro e são adultos que governam o País. Portanto, tratar o comportamento do presidente como infantilizado nos parece um equívoco. O presidente Jair Bolsonaro é um adulto e precisa responder por seus atos como tal.

Pesquisadoras e pesquisadores da RECRIA – Rede de Pesquisa em Comunicação Infâncias e Adolescências

 13 de outubro de 2021